sexta-feira, maio 28, 2010

Há um ano atrás III

27 de Maio 09, 4ª feira

A madrugada começou já eu estava no hospital, a instalar-me no quarto que é a sala de parto natural do Hospital de S. João. A parteira designada para me acompanhar veio apresentar-se e ajudar no que fosse necessário. As dores das contracções faziam-me ansiar pela água morna e a primeira coisa que fiz foi vestir o bikini e saltar para dentro da banheira. A J. ia-me dando jactos de água para aliviar as dores. Ao aperceber-se de que estava diante de uma colega, a parteira deixou-nos à vontade e vinha regularmente medir os batimentos cardíacos do Josué e ver a evolução do trabalho de parto. Ia-me perguntando se já tinha vontade de fazer força; eu respondia que não.
Quando atingi a dilatação completa, pensando que não tarda teria mesmo de fazer força, achei que não valia a pena voltar a entrar na água, até porque as regras do hospital não permitem o parto na água, nem mesmo estar dentro de água após a ruptura de membranas. Aproveitei então para caminhar pelo quarto, sentar-me na bola de Pilates e movimentar-me de maneira a favorecer a descida do Josué.
O tempo ia passando e nada. Só tinha contracções cada vez mais fortes e menos espaçadas. O TENS já não ajudava e o cansaço acumulado começava a tirar-me forças. A determinada altura, fico muito enjoada e acabo mesmo por vomitar, o que, com contracções em simultâneo, fez com que tivesse uma ligeira ruptura de membranas. A J. depressa me assegurou que estes eram sintomas normais do trabalho de parto. Continuei a andar pelo quarto, procurando posições de alívio, trauteámos cânticos, pedi a Deus forças para conseguir usar a dor para pôr o Josué cá fora sozinha, sem epidural, sem oxitocina, sem episiotomia, tal como tinha desejado. Confesso que a determinado momento achei que não ia conseguir. O cansaço era tal que só queria deitar-me e dormir.
Como não havia grandes progressos, pedi que chamassem a obstetra para romper definitivamente as membranas e procurar assim acelerar o processo. A médica veio. Eram 5:00.
Com a perda do líquido amniótico foi tudo mais rápido. As contracções intensificaram-se ainda mais e ao fim de um bocado o Josué já parecia pronto a sair. Chama-se o resto da equipa de parteiros, preparam-se os instrumentos, perguntam-me em que posição quero dar à luz e ajeita-se a cama em função disso. Ajudam, dão instruções, relembram respirações. A J. sempre ao meu lado, a dar o apoio extra que nenhum deles podia dar, sempre a assegurar-me que estava quase e ia conseguir.
O cansaço só me fazia querer estar deitada. No curtíssimo intervalo das contracções quase dormia. Não estivesse eu tão cansada e tinha-me posto noutra posição mais favorável ao percurso do Josué. Sentia-o a bater-me no fundo da coluna, o que me provocava dores fortíssimas a cada contracção e me impedia de manter a força constante para o pôr cá fora. Mas chega-se sempre a um ponto em que a dor deixa de importar e não há como não fazer força para ele nascer.
Eram 06:45 quando ele viu o mundo pela primeira vez. 3,890 kg, 52,5 cm, 35,5 cm de perímetro cefálico, um matulão, tal como a mana já tinha sido. Nasceu como eu desejei: sem epidural, oxitocina e episiotomia. Acredito que Deus deu a todas as mulheres, tal como a todas as fêmeas, a capacidade natural de parir, ainda que o façamos com dores. Mas também creio que essa dor é benéfica e indica aquilo que, ao darmos à luz, podemos fazer para ajudar o bebé a nascer. Se repetisse um parto, tentaria fazê-lo na água, que tanto conforto proporciona. E se não pudesse ser na água, então novamente um parto natural, sem drogas, sem estar presa numa cama e agarrada a monitores. E dói? Dói, claro, mas vale a pena e passa logo!

5 apontamentos:

CLS disse...

Belo e comovente relato, todos os partos deveriam ser assim!
Muitos parabéns ao Josué, que a vida lhe sorria sempre.
Beijinhos.

Sara CS disse...

Parabéns!
Para a próxima é na água (venha a próxima!!!).

Karla disse...

Parabéns ao Josué e a toda a família :)

Ana Rute Oliveira Cavaco disse...

são as dores que mais valem a pena!

Kella disse...

Muitos parabéns pela coragem e pelo maravilhoso relato...comovo-me sempre com a descrição de um parto.